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  • Na Drogaria: Dispensação de antimicrobianos

    Na Drogaria: Dispensação de antimicrobianos

    O artigo de hoje se baseia na RESOLUÇÃO RDC Nº 20, DE 5 DE MAIO DE 2011, RDC esta que norteia as novas regras de dispensação de antimicrobianos nas farmácias. Apesar de já ter havido diversas revogações desde sua implantação, muitos profissionais ainda apresentam dúvidas no momento da dispensação.
     
    Hoje, estaremos abordando suas diretrizes originais; suas revogações serão discutidas em artigo posterior a este.
     
    RECEITUÁRIO:  receituário privativo do prescritor ou do estabelecimento de saúde, não havendo, portanto modelo de receita específico. A receita deve ser prescrita de forma legível, sem rasuras, em 2 (duas) vias e contendo os seguintes dados obrigatórios:
     
    I – identificação do paciente: nome completo, idade e sexo;
     
    II – nome do medicamento ou da substância prescrita sob a forma de Denominação Comum Brasileira (DCB), dose ou concentração, forma farmacêutica, posologia e quantidade (em algarismos arábicos);
     
    III – identificação do emitente: nome do profissional com sua inscrição no Conselho Regional ou nome da instituição, endereço completo, telefone, assinatura e marcação gráfica (carimbo);
     
    IV – data da emissão.
     
    Particularidades da receita:
     
    – A receita poderá conter a prescrição de outras categorias de medicamentos desde que NÃO sejam sujeitos a controle especial.
     
    – Não há limitação do número de itens contendo medicamentos antimicrobianos prescritos por receita.
     
    – A receita deve ser aviada uma única vez e não poderá ser utilizada para aquisições posteriores, salvo nas situações previstas no artigo 8º desta norma (prescrições de uso contínuo)
     
    – Em situações de tratamento prolongado/contínuo, a receita poderá ser utilizada para aquisições posteriores dentro de um período de 90 (noventa) dias a contar da data de sua emissão. Na situação descrita, a receita deverá conter a indicação de uso contínuo, com a quantidade a ser utilizada para cada 30 (trinta) dias, não podendo ser dispensado quantidade inferior. No caso do paciente não desejar a compra da quantidade para os 30 dias, o farmacêutico deverá orientá-lo que a receita perderá a validade para novas aquisições.
     
    Exemplo de dispensação de uso contínuo:
     
    Cefalexina 500mg ————————- Cx
    Tomar 1cp 6/6 hrs – Uso contínuo
     
    Neste caso, o paciente poderá levar a quantidade para todo o tratamento (máximo de 90 dias por receita) ou quantidade mensal (120 cp). O farmacêutico irá anotar no verso da 2ª via da receita (paciente) a quantidade dispensada e, para as próximas aquisições, o paciente deverá apresentar esta mesma via da receita onde será dispensado e anotado a quantidade para mais 30 dias de tratamento e da mesma forma no mês consecutivo encerrando o tempo de tratamento para aquela prescrição.
     
    No caso de estender o tratamento, o paciente deverá adquirir nova receita médica.
     
    – A dispensação em farmácias e drogarias públicas e privadas dar-se-á mediante a retenção da 2ª (segunda) via da receita, devendo a 1ª (primeira) via ser devolvida ao paciente.
     
    – A dispensação de antimicrobianos deve atender essencialmente ao tratamento prescrito, inclusive mediante apresentação comercial fracionável, nos termos da Resolução RDC nº 80/2006 ou da que vier a substituí-la.
     
    – No ato da dispensação devem ser registrados nas duas vias da receita os seguintes dados:
     
    I – a data da dispensação;
     
    II – a quantidade aviada do antimicrobiano;
     
    III – o número do lote do medicamento dispensado; e
     
    IV – a rubrica do farmacêutico, atestando o atendimento, no verso da receita.
     
    – Esta Resolução não implica vedações ou restrições à venda por meio remoto, devendo, para tanto, ser observadas as Boas Práticas Farmacêuticas em Farmácias e Drogarias, estabelecidas na Resolução RDC nº. 44/2009 ou na que vier a substituí-la.
     
    VALIDADE: a receita de antimicrobianos é válida em todo o território nacional, por 10 (dez) dias a contar da data de sua emissão (prescrição).
     
    ARMAZENAMENTO: os antimicrobianos não necessitam ser guardados em armário com chave. Os mesmos podem ficar expostos nas prateleiras desde que, fora do alcance dos clientes e que seja feitos seu controle de saldo (quantidade).
     
     SNGPC: a escrituração no sistema gerenciado pela ANVISA, segue as mesmas normativas das demais classes de medicamentos, com o prazo máximo de até 7 dias para lançamento.
     
    TROCA: por se tratar de um medicamento controlado, é vedada a devolução, por pessoa física, de medicamentos antimicrobianos industrializados ou manipulados para drogarias e farmácias.
     
    ARQUIVO: todas as receitas deverão ficar arquivadas no estabelecimento durante um prazo de 2 anos.
     
    Fonte: www.tudodedrogaria.com.br
  • Cientistas do Rio revelam os alvos do zika no cérebro

    Cientistas do Rio revelam os alvos do zika no cérebro

    Pela primeira vez, o zika é flagrado ao destruir o cérebro humano. Um estudo de cientistas de instituições do Rio de Janeiro mostrou em laboratório a devastação provocada pelo vírus no sistema nervoso central de fetos. A pesquisa revela que o zika ataca células-tronco neuronais, mais especificamente aquelas que dão origem aos neurônios do córtex, a área mais nobre do cérebro. Esse é o primeiro estudo do mundo a demonstrar uma relação de causa e efeito entre o zika e danos neurológicos. — Mostramos que existe uma relação causal entre o zika e a destruição do sistema nervoso — afirma o coordenador do estudo, Stevens Rehen.
     
    Além de Rehen, da neurocientista Patrícia Garcez e do virologista Amílcar Tanuri, participaram do estudo cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Antes, havia só uma correlação entre a infecção pelo zika e a microcefalia e defeitos do sistema nervoso. Até agora, ninguém tinha observado o zika em ação dentro de células humanas.
     
    Mais estudos serão necessários para a comprovação e o entendimento de como o zika causa uma síndrome congênita capaz de afetar várias partes do feto em desenvolvimento. O estudo foi realizado com células humanas, diferentemente de experiências em curso em instituições estrangeiras, que usam modelos animais. 
     
    “UMA CASCATA DE DESTRUIÇÃO” 
     
    Os cientistas simularam a ação do zika em diferentes períodos da gestação. Com estruturas chamadas neuroesferas (feitas de células nervosas), eles viram o que acontece quando o vírus ataca o sistema nervoso assim que este se forma. Nesse caso, a destruição é praticamente total. Com o uso de minicérebros (estruturas celulares que se organizam como o cérebro), eles observaram o que ocorre do primeiro ao terceiro mês de gestação — uma redução de 40% no crescimento e morte maciça de neurônios.
     
    — Isso não significa que o zika não ataque outras células. Mas seu alvo parece ser as célulastronco do córtex. Com isso, ele provoca uma cascata de destruição no feto, onde essas células- tronco se proliferam — explica Rehen. Seguindo a orientação da OMS sobre partilha de dados em caso de emergência, os resultados estarão disponíveis on-line hoje numa revista científica internacional.
     
    Fonte: O Globo
  • Zika pode infectar pernilongo, diz Fiocruz

    Zika pode infectar pernilongo, diz Fiocruz

    O surto do vírus zika no Brasil pode ter um novo vetor além do mosquito Aedes aegypti, segundo revelação feita ontem por pesquisadores do projeto de vetores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco. De acordo com a cientista Constância Ayres, o vírus foi encontrado ativo na glândula salivar e no intestino do mosquito Culex, o pernilongo comum.
     
    “Isso significa que o atual vírus conseguiu escapar de algumas barreiras no mosquito e chegou à glândula salivar”, explicou a pesquisadora durante o workshop A,B,C,D,E do vírus zika. No encontro, ela apresentou resultados preliminares da investigação que levaram à disseminação do vírus para a glândula salivar do mosquito, por onde aconteceria a transmissão da doença para humanos.
     
    A conclusão se deu após Constância realizar em laboratório três infecções em aproximadamente 200 mosquitos Culex criados em laboratório em dezembro e em fevereiro.No experimento,a pesquisadora alimentou por sete dias os pernilongos com sangue infectado pelo zika e a conclusão foi que o vírus se manteve ativo. Apesar de parcial, a pesquisa levanta forte hipótese de o Culex também transmitir o vírus da zika.
     
    “Para concluir isso (em definitivo), só falta identificar em campo a espécie de mosquito infectada com o vírus da zika”, ressaltou a bióloga que ingressará com a nova fase da pesquisa, partindo para análise do material de campo que está sendo coletado para chegar a uma conclusão – em seis a oito meses. “Nas casas e onde acontecem registros do vírus estão sendo coletados mosquitos das duas espécies. Trazemos esse material para o laboratório e fazemos os testes moleculares para detectar o vírus nessas espécies. Tendo realizada uma grande quantidade de amostras, poderemos ter uma ideia se o Aedes é o vetor exclusivo, se existem outros vetores e qual a importância de cada um na transmissão”, afirma.
     
    A presença do Culex em zonas urbanas do País supera em 20 vezes a incidência do Aedes, conforme os especialistas da Fiocruz. Ele também constituiria uma ameaça maior, por estar disseminado quase em todo omundo, e por ter facilidade de reprodução em água suja – ao contrário do vetor comum de dengue, zika e chikungunya.
     
    Cautela
     
    Apesar do achado, especialistas dizem que o fato de o Culex ser“infectável ”não indica obrigatoriamente que ele possa transmitir zika.“O experimento ainda é muito preliminar”, disse Margareth Capurro, bióloga do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
     
    O assunto também foi discutido ontem nos Estados Unidos. Em debate sobre o combate à zika realizado na sede da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), em Washington, o coordenador do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz, Paulo Buss, afirmou que será preciso pesquisar mais para descobrir se o vírus pode ser transmitido pelo Culex. “A possível transmissão não está descartada, mas ainda precisa ser provada. É uma das questões que ainda não sabemos responder”, ressaltou. “Diversos estudos estão sendo levados adiante e as análises ainda estão sendo reunidas por entomologisatas e outros especialistas”, afirmou Buss.
     
    Balanço
     
    No mesmo evento, a Opas informou que há 134 mil casos suspeitos de zika no continente e 2.765 confirmados.A organização destaca que, pelo fato de 80% das vítimas serem assintomáticas e ainda existir dificuldade de diagnóstico, esses números não representam o surto.
     
    Fonte: O Estado de S.Paulo
     
  • Saliva de aedes tem poder anti-inflamatório

    Saliva de aedes tem poder anti-inflamatório

    O Aedes aegypti, quem diria, tem um lado bom. Pesquisadores da USP encontraram na saliva do mosquito transmissor dos vírus da dengue, da zika e da chikungunya substâncias anti-inflamatórias capazes de controlar a imunidade e tratar doenças intestinais, como acolite ulcerativa, em roedores.
     
    O estudo experimental, realizado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP em Ribeirão Preto,resultou em tese de doutorado e artigo publicado na revista científica “International Immunopharmacology”.
     
    Agora, os pesquisadores tentam identificar quais são as moléculas da saliva que têm essa ação terapêutica.Segundo a imunologista Cristina Cardoso, que orientou o trabalho, na saliva do aedes existe um“coquetel”de substâncias que ainda estão sendo identificadas. A ideia é extrair essas moléculas específicas, sintetizá-las em laboratório para então estudá-la sem ensaios clínicos (humanos).
     
    Como obter baba de mosquito? O especialista é Anderson de Sá Nunes, professor do Instituto de Ciências Biomédicas, da USP. O tratamento no modelo animal escolhido, em camundongos, dura cerca de quatro dias. Para cada dose, são usados 5 microgramas (0,000005 grama) de proteína, o que requer as glândulas salivares de dois mosquitos-fêmeas.
     
    É possível que apenas um centésimo deste total de proteína corresponda aos princípios ativos (ainda não se sabe quantos seriam), que provavelmente têm natureza proteica, explica Nunes. É factível imaginar que a dose de um remédio para humano adulto— supondo que a droga seja segura e chegue a esse nível de desenvolvimento— fique na casa dos miligramas.
     
    Isso seria compatível coma produção industrial, diz o cientista, que está tentando obter financiamento para criar uma empresa que faria os chamados estudos pré-clínicos—realizados em animais antes que os remédios cheguem aos testes humanos.
     
    Após a identificação e sequenciamento da molécula, a produção pode ser feita tanto usando “biofábricas” à base de fungos ou bactérias ou por meio de sintetizadores artificiais, a depender da complexidade da molécula. Segundo Nunes, a nova droga à base de saliva de mosquito também obteve sucesso no tratamento de doenças como a hepatite autoimune e a esclerose múltipla. Assim como a colite ulcerativa, elas têm um importante componente inflamatório.
     
    COLITE 
     
    O trabalho na USP de Ribeirão começou há quatro anos. Primeiro, os roedores foram induzidosadesenvolver colite (veja infográfico). Com a inflamação instalada e os sinais manifestados (como diarreia, perda de peso e sangramento intestinal), começou o tratamento. Os animais receberam a injeção de extrato de glândula salivar —nós e o mosquitos dispomos de um par delas.
     
    Cristina diz que os camundongos apresentaram melhora clínica geral e da inflamação. Também houve diminuição da produção de substâncias do sistema imune associadas à piora clínica,como as citocinas inflamatórias. Essas citocinas são proteínas produzidas durante a inflamação e estão diretamente ligadas ao desenvolvimento da colite ulcerativa e da doença de Crohn. No estudo, não foram observados efeitos tóxicos do tratamento.
     
    É também na glândula salivar da fêmea do aedes que os vírus da dengue, da zika e do chikungunya se alojam.Só a fêmea é que transmite as viroses,pois é ela quem pica. Na busca pelo sangue, a fêmea precisa vencer barreiras que começam por transpassar a pele e vão até o controle da hemostasia (mecanismos que regulam a fluidez do sangue) e da imunidade dos hospedeiros (humanos, no caso).
     
    A produção de moléculas bioativas pelas glândulas salivar e sé uma característica comum a insetos hematófagos (que se alimentam de sangue). No caso do barbeiro (que carrega o parasita da doença de Chagas), a saliva possui moléculas anestésicas e até capazes de formar poros em células, como viram pesquisadores da Unifesp. Produzir esse molécula de natureza proteica poderia ser uma defesa natural do bicho contra o parasita Trypanosomacruzi, que, diferentemente dos mosquitos, não transmite patógeno pela saliva, mas pelas fezes.
     
    Fonte: Folha de S.Paulo
     
  • `Se o paciente melhorava, que mal faria?`, diz criador da `pílula do câncer`

    `Se o paciente melhorava, que mal faria?`, diz criador da `pílula do câncer`

    O professor aposentado da USP cujo trabalho com a chamada “pílula do câncer” acabou mobilizando milhões de reais em verbas públicas e causando contrariedade em boa parte da comunidade científica do país diz que o boca a boca entre pacientes e médicos o levou a distribuir por décadas a substância conhecida como fosfoetanolamina para doentes de câncer.
     
    “Como o médico indicava e o paciente estava melhorando, eu pensei: que mal haveria em dar?”, declarou à Folha o químico Gilberto Orivaldo Chierice, 72. “Não considerava que aquilo era responsabilidade minha, era responsabilidade do médico que fazia a indicação. Eu nunca analisei ninguém, até porque não sou médico, o cara é que me trazia o exame mostrando o antes e o depois com resultados bons.”
     
    Chierice recebeu a reportagem da Folha na varanda de sua casa, que fica a poucos metros de um dos portões do campus principal da USP em São Carlos (SP). Fumando continuamente um cigarro de palha (“Não consigo parar por sem-vergonhice mesmo, acho”, brinca), o pesquisador se disse convicto da eficácia da molécula estudada por ele e seus colegas, embora ressalte que não há “milagre” na ação da substância.
     
    “Não estou dizendo que é uma panaceia. Se vai funcionar 200% em todos os tipos de câncer, não sou eu que tenho de dizer isso, os testes é que vão mostrar, mas por que não deixar que eles sejam feitos?”, questiona.No fim de 2015, após uma enxurrada de ações judiciais e manifestações organizadas pelos pacientes que queriam ter acesso à substância, o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) anunciou que investiria R$ 10 milhões para testar a eficácia da fosfoetanolamina, a começar por ensaios com animais de laboratório.
     
    Ao mesmo tempo, o governo estadual de São Paulo traçou um plano para iniciar estudos controlados da molécula com cerca de 200 pacientes humanos. Segundo o ministério, os experimentos com animais estão prestes a começar. Já o projeto paulista aguarda sinal verde da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa).
     
    Foi justamente a falta de evidências sobre a segurança e eficácia do produto que levou muitos especialistas a questionar o uso informal e a pressão para que verbas de pesquisa fossem destinadas ao tema a toque de caixa.
     
    “Até onde sei, há centenas de moléculas mais promissoras que essa sendo avaliadas por pesquisadores brasileiros hoje”, resume Rafael Roesler, pesquisador do Departamento de Farmacologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). “As evidências da possível utilidade da fosfoetanolamina contra o câncer ainda estão num nível muito básico.”
     
    De fato, do currículo de Chierice constam só seis trabalhos publicados sobre a molécula em revistas científicas internacionais (de um total de mais de 80 envolvendo outras áreas de pesquisa ao longo de sua carreira). As pesquisas saíram entre 2011 e 2013 e versam apenas sobre a ação da “fosfo”, como é chamada, em culturas de células em laboratório e animais.
     
    Nenhum estudo envolvendo pacientes humanos foi publicado ainda. A divulgação de resultados em revistas científicas é considerada um passo essencial para validar uma hipótese de pesquisa, já que os dados, antes de serem publicados, precisam passar pelo crivo de outros cientistas da área.
     
    PARCERIA INTERROMPIDA
     
    Chierice, no entanto, argumenta que foram justamente testes controlados em humanos, os quais teriam sido feitos nos anos 1990, os responsáveis por motivar o interesse inicial dos pacientes na substância. Ele cita o convênio assinado em 1996 entre o IQSC-USP (Instituto de Química da USP de São Carlos), onde lecionava, e o Hospital Amaral Carvalho, de Jaú (SP), hoje um dos centros de referência no tratamento de câncer do interior paulista, cujo objetivo teria sido avaliar a aplicação clínica da “fosfo”.
     
    O trabalho de Chierice inicialmente não tinha nenhuma aplicação médica -sua especialidade era a química analítica, ou seja, as técnicas para quantificar o que acontece numa reação química.
     
    Ele e seus colegas estavam estudando eletrodos que fossem seletivos para o elemento químico cálcio, ou seja, que “atraíssem” o cálcio de forma específica. “Para isso, seria interessante ter um cristal de fosfato, talvez um cristal orgânico, e a fosfoetanolamina parecia se encaixar bem nesse perfil”, conta.
     
    Ao estudar as propriedades da molécula em meados dos anos 1980, porém, ele diz ter ficado assustado ao ver que trabalhos mais antigos apontavam uma relação entre a “fosfo” e a presença de tumores em animais, o que sugeria que ela poderia ser cancerígena. “A gente ficou preocupado em mexer com aquilo”, afirma.
     
    De acordo com ele, análises mais aprofundadas da literatura científica indicaram que ela era muito comum em todo o organismo, sendo fabricada nos músculos e no fígado, além de estar presente no leite materno e até em frutos do mar.
     
    “Aí me veio o estalo: e se for algo que o organismo está produzindo para combater o tumor?”, relembra Chierice. “Parecia algo alvissareiro.”
     
    A equipe, que já tinha contato com o Amaral Carvalho e com a Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, conseguiu que a segunda instituição fizesse testes de toxicidade da “fosfo” em roedores.
     
    “Ficou demonstrado que ela não era tóxica, muito pelo contrário, e que podia ser usada em qualquer ser vivo”, afirma Chierice. Segundo ele, isso teria animado a equipe e levado ao estabelecimento de um protocolo de testes em pacientes do hospital de Jaú.
     
    ALTAS DOSES
     
    É nesse ponto que não está totalmente claro o que aconteceu. Quando a Folha questionou o Amaral Carvalho sobre a parceria com a equipe de Chierice, a resposta inicial foi que o convênio só se referia ao teste de próteses feitas a partir de óleo de mamona, outra linha de pesquisa do químico na época.
     
    A reportagem obteve então cópias do convênio assinado em 1996, o qual incluía, além da menção aos produtos derivados de mamona, a previsão de estudos conjuntos sobre “novas moléculas para disfunções celulares” – segundo Chierice, esse era o termo então usado para designar a “fosfo”.
     
    A Folha perguntou se o hospital confirmava essa informação, mas, por meio de sua assessoria de imprensa, a direção do Amaral Carvalho disse que não iria se manifestar sobre o tema.
     
    Chierice, porém, afirma que alguns pacientes chegaram a receber doses altas da molécula -inicialmente, teriam sido 30 comprimidos por dia- e teriam tido melhoras significativas. Para atender à demanda, diz que desenvolveu um método mais eficaz de síntese da “fosfo”. “Passamos a produzir um sal com altíssimo grau de pureza”, afirma. Embora o convênio tenha expirado em 2001, sem que o hospital continuasse a linha de pesquisa, Chierice afirma que o sucesso inicial fez com que outros médicos que tinham ficado sabendo da iniciativa sugerissem que seus pacientes fossem buscar a droga em São Carlos.
     
    “Aí o médico ainda vinha pegar para ele, para a mãe, para a avó e para tia. E muitos coleguinhas da USP também vinham pedir, embora eu nunca tenha feito propaganda”, ironiza o químico.
     
    Ao longo dos anos, diz que nunca distribuiu menos de 40 mil pílulas por mês. Dividindo esse número por 60 (a dose mensal que recomendava para cada doente), ele estima que cerca de 700 pessoas recebiam a “fosfo” todos os meses.
     
    Para ele, esse número “já prova” que a molécula é eficaz, afirmação da qual quase todos os demais especialistas discordam -sem um controle rígido do estado de saúde de cada paciente e um acompanhamento constante de longo prazo, é impossível saber se a causa da melhora desses pacientes foi mesmo a “fosfo”.
     
    “É um processo que está completamente fora da maneira como se estuda um medicamento contra câncer. Você cai num ciclo de pensamento mágico”, diz Roesler.
     
    Chierice diz que tentou retomar a avaliação clínica da droga diversas vezes desde 2001, mas teve dificuldade de encontrar interessados. Foi por meio de uma parceria com pesquisadores do Instituto Butantan que a equipe conseguiu publicar os trabalhos que parecem elucidar o mecanismo de ação da “fosfo” no organismo.
     
    Segundo esses estudos, a molécula seria capaz de alterar radicalmente o funcionamento das células tumorais, que normalmente são anaeróbicas (grosso modo, não “respiram” oxigênio). A substância forçaria as células de câncer a ficarem aeróbicas, ativando suas mitocôndrias (as usinas de energia das células).
     
    “Se você enfia a fosfo numa célula de câncer, é como colocar gasolina azul usada em aviões num Fordinho 1929: vai voar pistão para todo lado”, compara Chierice.
     
    “CIENTISTA TÍPICO”
     
    Antigos colegas de Chierice, do IQSC, se mostraram relutantes em conversar com a reportagem -a Folha apurou que o caso da “fosfo” causou mal-estar generalizado. Um deles, que preferiu não se identificar e é professor da USP há mais de 20 anos, conta que, enquanto o pesquisador estava na ativa, a distribuição constante das pílulas para pacientes não despertou nenhuma reação coletiva entre seus pares.
     
    “Mesmo que isso causasse surpresa, num ambiente como a universidade, o que você poderia fazer para coibir uma atividade de alguém que estava no mesmo nível administrativo que você? A rigor, nada. Não se vê isso como negligência, mas simplesmente como não fazer algo que não é da sua alçada, caso você não tenha um cargo administrativo”, explica o pesquisador.
     
    Segundo ele, Chierice nunca pareceu fugir do perfil típico dos demais pesquisadores da universidade. “Sempre me pareceu um cara simples, na dele”, diz. Para o químico, o surpreendente é que situações parecidas não sejam mais comuns. “A falta de regulação ainda é muito mais a regra do que a exceção na universidade.”
     
    Chierice, de fato, descreve-se como um sujeito “comum demais”. Pai de um casal de filhos e avô de cinco netos, descendente de italianos e natural da pequena Rincão (SP), afirma não ter ídolos entre os grandes nomes da ciência. “Sou o único cientista que acredita no Criador”, brinca, dizendo-se “católico, mas muito ecumênico”. Gosta muito de pescar, “mas antes de me aposentar não tinha tempo para isso, e agora a `fosfo` me pegou de jeito”.
     
    O químico atribui o tamanho da polêmica sobre o produto à proibição de sua fabricação na USP depois que ele se aposentou. “Com 700 pessoas usando por mês, é lógico que haveria ações judiciais”, diz. “Não me chamaram de professorzinho aposentado, de garrafeiro? Pois agora que provem que não funciona de verdade.”
     
    Fonte: Folha de S.Paulo
  • Proposta: Contribuinte com mais de 50 anos poderá deduzir gastos com medicamentos do IR

    Proposta: Contribuinte com mais de 50 anos poderá deduzir gastos com medicamentos do IR

    A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 412/15, do deputado Rubens Bueno (PPS-PR), que autoriza que sejam dedutíveis, na declaração do Imposto de Renda, as despesas de aquisição de medicamentos de uso contínuo, para consumo do contribuinte com idade igual ou superior a 50 anos. O uso deverá ser comprovado por nota fiscal e receita médica em nome do contribuinte
     
    O projeto acrescenta dispositivo à Lei 9.250/95, que hoje admite que as despesas médicas sejam dedutíveis na declaração do Imposto de Renda, mas não inclui as despesas com medicamentos.
     
    “Isso deixa de ser um contrassenso, pois a ida ao médico tem como objetivo a obtenção da receita, com a indicação dos medicamentos que devem ser tomados”, disse Bueno. “Ao adquirir os medicamentos prescritos pelo médico, o paciente necessariamente terá gastos com sua saúde, que restringem sua capacidade contributiva”, completou.
     
    Tramitação
     
    A proposta será analisada em caráter conclusivo pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
     
    Fonte: O Globo / Site
     
  • Droga para diabetes ganha versão para tratar obesidade

    Droga para diabetes ganha versão para tratar obesidade

    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou nesta segunda-feira (29) o Saxenda, a primeira droga contra a obesidade no país desde 1998. O remédio deve chegar ao mercado no segundo semestre de 2016. O medicamento tem o mesmo princípio ativo do Victoza, aprovado no país em 2010 para o controle do diabetes tipo 2 e que, por causar perda de peso, gerou uma corrida às farmácias por pessoas que não tinham a doença. Na época, a Anvisa divulgou comunicado contraindicando qualquer uso do Victoza diferente do aprovado. “Já havia pistas de que a liraglutida princípio ativo da droga poderia ser eficaz na perda de peso, mas não sabíamos como se comportaria em não diabéticos”, diz João Eduardo Salles, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia.
     
    A droga depois foi estudada especificamente para a obesidade e aprovada com esse fim -e outro nome- nos EUA, no Canadá e na Europa. A única diferença é a dose, maior na nova droga. “O remédio é novo, ainda está sendo estudado e é preciso cautela, mas é um avanço no tratamento clínico da obesidade”, avalia Salles. Hoje, há duas drogas disponíveis: sibutramina e orlistate.
     
    O uso do Saxenda é indicado para adultos com IMC (índice de massa corporal) de 30 ou mais (índice equivalente à obesidade) ou 27 ou mais (sobrepeso) desde que haja pelo menos uma outra doença associada ao peso. “Não é para tratar uma pessoa que quer perder uns quilinhos para o verão. O uso da droga tem que ter indicação médica”, afirma Bruno Halpern, coordenador do Centro de Controle de Peso do Hospital 9 de Julho.
     
    COM RECEITA
     
    O preço não foi definido, mas deve ser similar ao do Victoza, que custa cerca de R$ 400. A droga terá tarja vermelha, o que requer receita médica. Na prática, porém, é raro que ela seja cobrada. “É provável que haja uso estético e abusivo, mas isso não invalida o uso por quem precisa”, diz Halpern.
     
    Em nota, a Anvisa informou que o Saxenda foi aprovado para controle crônico de peso “em associação a uma dieta baixa em calorias e aumento de exercício físico” e que “a segurança do produto continuará sendo monitorada com estudos pós-comercialização”.
     
    O acompanhamento médico é importante inclusive por conta dos possíveis efeitos colaterais. Segundo estudo com mais de 3.000 pacientes publicado na revista científica “New England Journal of Medicine”, os mais comuns são distúrbios gastrointestinais, como náusea e vômito, mas também houve eventos adversos ligados a vesícula biliar.
     
    O efeito mais grave foi pancreatite (inflamação do pâncreas) em 10 dos 2.481 pacientes do grupo que tomou a droga. A doença já era fonte de preocupação desde o lançamento do Victoza, mas, segundo Salles, ela tem se mostrado rara na prática clínica.
     
    VETO E LIBERAÇÃO
     
    O debate sobre a liberação de alguns emagrecedores segue. Em 2011, a Anvisa vetou três drogas e tornou a venda da sibutramina mais rígida, por falta de estudos que atestem sua segurança. Mas um projeto de lei que permite a venda dessas drogas e proíbe a Anvisa de fazer vetos a essa questão tramita no Congresso.
     
    Após ser aprovado na Câmara e em comissões, o texto deve seguir agora para o plenário do Senado.
     
    Fonte: Folha de S.Paulo
  • Uma morte sob investigação

    Uma morte sob investigação

    A morte de uma jovem de 22 anos anteontem, no Hospital Salgado Filho, no Méier, acendeu o sinal de alerta. A suspeita é que ela tenha sido vítima da síndrome de Guillain-Barré, que vem sendo associada à infecção pelo vírus zika. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, o diagnóstico ainda não foi concluído. Infectologistas e neurologistas, por sua vez, lembram que a doença pode ser desencadeada também por gripe ou diarreia. Mas o caso já leva especialistas a serem taxativos: o óbito precisa ser investigado de forma rigorosa. De acordo com a prefeitura, a paciente deu entrada na unidade na noite de quarta-feira.
     
    Horas depois, já de madrugada, morreu. A secretaria ainda não esclareceu que exames foram feitos, nem quando poderá confirmar a causa do óbito. Tampouco divulgou detalhes dos sintomas apresentados pela jovem. A síndrome de Guillain-Barré acomete, normalmente, o sistema nervoso periférico, podendo provocar paralisia.
     
    No Hospital da Restauração, em Recife, referência em neurologia em Pernambuco, só no ano passado, por exemplo, foram registradas nove mortes por Guillain-Barré, todas associadas ao zika — isso num cenário de 155 casos notificados da síndrome, com 50 deles confirmados.
     
    Já na rede estadual de saúde do Rio, desde julho de 2015 foram notificados 43 casos da doença. Desses, 15 tinham relato de manchas vermelhas na pele — principal sintoma da infecção por zika —, 26 aguardam resultados de exames laboratoriais e dois foram descartados por não terem quadro clínico compatível.
     
    No Hospital Universitário Antônio Pedro, da UFF, em Niterói, são 23 casos em investigação. Segundo Osvaldo Nascimento, chefe da Unidade de Pesquisa Clínica em Neurologia do hospital, tem sido observada uma maior gravidade quando a doença é supostamente desencadeada por zika: — Historicamente, há óbitos, sim, relacionados com Guillain-Barré. Mas, antes da morte da jovem no Salgado Filho, será que ela teve zika? É preciso fazer um diagnóstico preciso.
     
    IDENTIFICAR ORIGEM DA SÍNDROME É DIFÍCIL 
     
    Já o infectologista Edimilson Migowski acredita que a gravidade dos casos da síndrome tem mais a ver com as condições imunológicas dos pacientes do que com o fator que os desencadeia. Ele lembra ainda que a doença pode se desenvolver de dez a 42 dias depois de o paciente apresentar um quadro infeccioso. E também defende uma análise cuidadosa da morte da jovem no Salgado Filho. — O diagnóstico de Guillain-Barré não é complicado de fazer. A dificuldade está em descobrir o fator desencadeante da síndrome. Até uma infecção intestinal de um mês atrás pode ser a causa — diz.
     
    Presidente da Sociedade de Infectologia do Rio, Alberto Chebabo explica que a doença pode afetar até a musculatura respiratória. — Os óbitos relacionados à síndrome quase sempre estão ligados a complicações desse quadro.
    Normalmente, até o paciente chegar a essa situação, leva um tempo — diz ele, ao comentar o intervalo curto entre a internação e a morte da jovem.
     
    O Ministério da Saúde ressalta que a mortalidade nos pacientes com Guillain-Barré é baixa, de cerca de 5% a 7%, geralmente devido a complicações como insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar e arritmias cardíacas.
     
    Segundo os últimos números de 2014, antes dos casos de zika, 161 pessoas morreram em todo o país em decorrência da síndrome. Dessas, 21 foram no Estado do Rio. Por ser rara, no entanto, a doença não tem notificação compulsória. 
     
    Fonte: O Globo
  • Mosquito transgênico aguarda sinal verde

    Mosquito transgênico aguarda sinal verde

    O combate a dengue, chikungunya e zika no Brasil pode se tornar, em breve, mais uma fonte de receita para a Intrexon, empresa especializada em biotecnologia com sede nos Estados Unidos. Detentora da patente do Aedes aegypti transgênico ou Aedes “do bem”, usado para controle das populações do mosquito, a empresa já tem o selo de segurança do Ministério da Ciência e Tecnologia para iniciar a comercialização do produto no país. Falta apenas o sinal verde da Anvisa.
     
    A aposta da Intrexon no mercado de combate ao mosquito Aedes aegypti no Brasil se concretizou a partir da compra da inglesa Oxitec em agosto, um mês antes de a epidemia de microcefalia eclodir no Nordeste. Com lucro de cerca de US$ 18,8 milhões (R$ 74 milhões) no último exercício, a Intrexon pagou US$ 160 milhões (R$ 631 milhões) em ações e dinheiro na transação. A Intrexon é avaliada na bolsa de valores americana em US$ 3,6 bilhões (R$ 14,2 bilhões).
     
    Com berço na Universidade de Oxford, na Inglaterra, a Oxitec desenvolveu uma técnica de transmissão de um gene para o mosquito que estimula a superprodução de uma proteína que impede seus descendentes de chegarem à fase adulta. A técnica existe desde 2002, mas só recebeu autorização para iniciar os testes em campo aberto em 2010. Desde então, eles vêm sendo feitos no Brasil em parceira com a Moscamed, uma organização social com sede em Juazeiro (BA).
     
    Os resultados, até agora, são “animadores”, conta Jair Virgínio, presidente da Moscamed. Em teste no município de Jacobina, interior da Bahia, houve uma redução de 90% da população de Aedes aegypti.
     
    Após um teste em parceria com a Prefeitura de Piracicaba com o mosquito transgênico no bairro de Cecap, a Oxitec diz que a área tratada está com 82% menos mosquitos transmissores do que a área não tratada. A prefeitura já assinou um protocolo de intenções para expandir o projeto para uma área central da cidade.
     
    Diante de uma possível liberação da comercialização no Brasil, a Oxitec, que tem uma unidade em Campinas, já está investindo na construção de uma nova fábrica em Piracicaba (SP). O investimento é de em torno de R$ 30 milhões. A unidade é capaz de atender uma região com mais de 300 mil habitantes e deve começar a funcionar plenamente no segundo semestre. “Temos recursos disponíveis para, uma vez sendo liberada a comercialização, iniciar a construção de novas fábricas”, diz o gerente de negócio da Oxitec, Cláudio Fernandes.
     
    O grande problema para o andamento dos negócios da empresa no país é a demora da análise da Anvisa. O órgão, que está com a demanda da Oxitec desde o ano passado, diz que ainda não é possível definir se o produto se encaixa entre aqueles passíveis de sua regulação, pois não se enquadra, a priori, em nenhum dos setores tradicionais, como limpeza, higiene, medicamentos, alimentos.
     
    A Anvisa não dá previsão de quando vai concluir a análise do Aedes transgênico. Segundo Fernandes, a FoodDrug Administration (FDA) – órgão equivalente à Anvisa nos Estados Unidos -, caracterizou a tecnologia como destinada a animais e não à saúde humana. “Os nossos possíveis clientes são condomínios, governos do Estado, governos municipais e empresas”, diz Fernandes.
     
    A seu favor, a Oxitec conta com a urgência do governo federal em combater o Aedes Aegypti a tempo de não prejudicar o turismo nas Olimpíadas. Há dez dias, a presidente Dilma Rousseff visitou a Moscamed em Juazeiro na Bahia e se disse “impressionada” com a tecnologia da Oxitec.
     
    A técnica do Aedes transgênico é exclusiva da Oxitec e única no país com fins comerciais, mas há outro métodos para controle de populações do mosquisto sendo estudados no Brasil.
     
    A Organização das Nações Unidas (ONU) está patrocinando um método, que usa irradiação com Cobalto 60 e produz mosquito estéril. A Moscamed deve receber um equipamento para este tipo de radiação em breve. “Ainda não é possível dizer qual técnica é mais econômica: a do mosquito estéril ou a do mosquito transgênico”, afirma Virgínio, da Moscamed.
     
    Fernandes, da Oxitec, observa que o fato da tecnologia do mosquito estéril estar sendo patrocinada com fins humanitários, não significa que ela seja gratuita caso venha a ser usada em grande escala. “O momento é positivo para todas as tecnologias que envolvem o Aedes. Não vemos o mosquito estéril como concorrente”, diz.
     
    Em Pernambuco, a Fiocruz e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) iniciaram testes com o Aedes estéril na ilha de Fernando de Noronha. Há ainda uma terceira tecnologia, também em estudo na Fiocruz, que estereliza o Aedes a partir da introdução de uma bactéria no seu organismo.
     
    Nenhuma das tecnologias promete exterminar o mosquito em definitivo. “A ideia é que, com a redução das populações, a gente possa controlar as epidemias, mas não extinguir totalmente o número de casos das doenças”, explica Fernandes.
     
    Fonte: Valor Econômico
     
  • Vírus do zika também pode estar ligado a lesões no cérebro de adultos

    Vírus do zika também pode estar ligado a lesões no cérebro de adultos

    Além de lesões no cérebro de bebês, o vírus zika pode estar provocando também problemas no cérebro de adultos. É o que desconfia um grupo de cientistas do Rio, que iniciou um projeto de pesquisa no começo da semana para investigar casos de encefalite (inflamação do cérebro) e de encefalomielite (inflamação também na medula espinhal) que vêm chegando aos hospitais do Estado em pacientes que também relataram sintomas de zika.
     
    Os casos que estão sendo investigados chamam a atenção diante de uma revelação feita na semana passada, quando foi noticiado o sequenciamento do genoma do zika, de que o vírus tem proximidade genética com o vírus da encefalite japonesa. A doença causa inflamação cerebral e sua transmissão envolve mosquitos do gênero Culex. O dado poderá ser útil para que os cientistas entendam melhor a biologia da zika.
     
    O trabalho no Rio, coordenado por pesquisadores do InstiEquipe inocula vírus em macacos e libera dados em tempo real. Um grupo internacional liderado pelo virologista americano David O`Connor, que conseguiu infectar macacos com o vírus zika, adotou uma prática incomum entre cientistas: em vez de publicar os resultados em revistas científicas, os pesquisadores estão liberando todos os dados em tempo real na internet.
     
    De acordo com Renato Aguiar, do Instituto Adolfo Lutz, que faz parte do grupo, denominado Equipe de Ciência Experimental da Zika, a equipe já conseguiu infectar três primatas e pretende infectar macacas grávidas a fim de compreender os casos em que a infecção pode causar microcefalia.
     
    “A ideia é acompanhar de perto como o vírus evolui e se desenvolve em um modelo animal”, disse Aguiar. Segundo ele, O`Connor, que estava no Brasil até ontem, percebeu a gravidade da epidemia de zika e decidiu abrir completamente os dados. “A revista Nature publicou um comentário, parabenizando essa iniciativa inovadora. Com as informações detalhadas divulgadas rapidamente, outros cientistas poderão planejar experimentos semelhantes”, afirmou. / F.C.
     
    tuto Dde Pesquisa e Ensino (Idor) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), visa a verificar se existe a relação entre o vírus e os problemas que estão sendo relatados. Para isso, é preciso antes de mais nada ter a confirmação da infecção, estabelecer a cronologia dos acontecimentos e investigar por imagens do cérebro o que de fato está acontecendo com essas pessoas.
     
    “Não temos dados epidemiológicos, mas a impressão é que houve um aumento de relatos de encefalite e mielite nos últimos meses. São casos de acometimento da medula e do cérebro de adultos. Agente já vem trabalhando com a possibilidade de o zika causar problemas neurológicos que são reativos, que é o caso da síndrome de Guillain Barré (reação do sistema imunológico à infecção). Mas pode ser que gere também problemas diretos”, explica Fernanda Tovar Moll, diretora científica do Idor e professora da UFRJ.
     
    Especialista em neuroimagem, ela está fazendo a análise de ressonâncias magnéticas desses pacientes. O objetivo, diz, é verificar as regiões do cérebro e da medula que possam ter sofrido alteração. “É como fazer um trabalho de cartografia das áreas mais acometidas.” Genoma. De acordo com Renato Aguiar, pesquisador do Instituto Adolfo Lutz que participou do sequenciamento, publicado na revista Lancet na semana passada, a descoberta poderá ajudar a investigar se o zika pode ser transmitido por outros vetores além do Aedes aegypti. “Por terem origens comuns, os dois vírus têm características biológicas comuns. Mas os vírus associados ao ramo da encefalite japonesa são transmitidos pelo Culex e não pelo Aedes. Como sabemos agora aposição filogenética do zika, podemos investigar pistas sobre seu comportamento e possíveis vetores”, afirma Aguiar.
     
    Segundo Márcio Nunes, do Instituto Evandro Chagas, que também fez sequenciamentos completos do genoma do zika, o fato de o vírus da encefalite japonesa provocar alterações no sistema nervoso poderá ser útil para que os cientistas busquem marcadores biológicos de virulência – isto é, elementos que expliquem por que em alguns casos a infecção pode levar à microcefalia.
     
    “No caso da encefalite japonesa, esses marcadores são muito bem descritos. Esse conhecimento prévio pode servir de base para que possamos buscar os marcadores no caso do zika.”
     
    Fonte: O Estado de S.Paulo